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Igreja inclusiva

Eu escolhi falar pra vocês sobre uma característica dessa igreja invisível de Deus que é a capacidade de ser inclusiva. Uma igreja inclusiva. Vamos dar uma olhada no que a natureza tem a nos ensinar sobre isso.

A sabedoria aborígene diz que “tudo é um”. As árvores de uma floresta estão conectadas por um sistema de comunicação que as ajuda a serem árvores produtivas, vibrantes, a permanecerem juntas, vivas, seguras e minimamente alimentadas. As mais velhas assumem papel de pais das mais novas. Todas as árvores estão ligadas a uma espécie de rede gigante. Elas têm sentimentos. São amigas. Cuidam umas das outras como um casal. Não competem entre si. Elas gostam da companhia umas das outras. Não gostam de ficar sozinhas. Cuidam umas das outras de verdade. O cérebro não é uma única árvore, mas sua grande rede. Os tocos de árvores ali tinham tudo para morrer, mas permanecem vivos por causa do enxerto de seus amigos. Incrível, não?

Eu encontrei duas definições importantes sobre “inclusão social” que me chamaram a atenção. A primeira é: “inclusão social é o conjunto de meios e ações que combatem a exclusão aos benefícios da vida em sociedade, provocada pelas diferenças de classe social, educação, idade, deficiência, gênero, preconceito social ou preconceitos raciais. É a capacidade de uma sociedade de oferecer oportunidades iguais de acesso a bens e serviços a todos.”. Uma definição mais curta, mas não menos relevante é a de Sassaki, que em 1997 classificou inclusão social como “a forma pela qual a sociedade se adapta para poder incluir as pessoas na sociedade e para prepara-las a assumir seus papeis na sociedade.”. Linda descrição! Considerando essas duas definições como base, eu gostaria de sugerir uma definição particular para o que eu considero ser a igreja inclusiva: “igreja inclusiva é aquela que se adapta para incluir qualquer ser humano na vida em comunidade e que também combate a exclusão aos benefícios de se viver numa família espiritual.”.

Como a inclusão pode e deve abranger quaisquer diferenças, eu quero me concentrar na inclusão do pobre. Não o meramente pobre, mas aquele que vive sem nada. Que não tem emprego. Que na maioria, ou em todas as vezes dorme na rua. Certamente os conceitos serão aplicáveis à grande maioria dos outros menos favorecidos que trataremos em uma outra oportunidade. Em Tiago 2:1-9, lemos o seguinte: “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade. Suponham que, na reunião de vocês, entre um homem com anel de ouro e roupas finas e também entre um pobre com roupas velhas e sujas. Se vocês derem atenção especial ao homem que está vestido com roupas finas e disserem: “Aqui está um lugar apropriado para o senhor”, mas disserem ao pobre: “Você, fique em pé ali”, ou: “Sente-se no chão, junto ao estrado onde ponho os meus pés”, não estarão fazendo discriminação, fazendo julgamentos com critérios errados? Ouçam, meus amados irmãos: Não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam? Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam para os tribunais? Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado? Se vocês de fato obedecerem à lei do Reino encontrada na Escritura que diz: “Ame o seu próximo como a si mesmo” , estarão agindo corretamente. Mas, se tratarem os outros com parcialidade, estarão cometendo pecado e serão condenados pela Lei como transgressores.”. E logo na sequência, em Tiago 2:15-16, lemos: “Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso?”.

A primeira motivação bíblica para incluir os pobres na igreja é a justiça do Reino de Deus. O texto acima nos diz, no versículo 5, que Deus escolheu as pessoas pobres aos olhos do mundo para serem herdeiras do Reino de Deus. Isso significa que dos pobres é o Reino de Deus. Isso está lá em Lucas 6:20: “olhando para os seus discípulos, ele disse: “Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus.”. Então, quando entregamos esse reino nas mãos dos desfavorecidos, entregamos a eles o que lhes é de direito. O que há de melhor no mundo pertence aos pobres por direito. Eles são os herdeiros do Reino do nosso Rei. Foi escolha de Jesus isso. Graça dEle. Como eu poderia fazer diferente?
A justiça do Reino de Deus é pautada pela equidade. Hebreus 1:8-9 diz: “Mas a respeito do Filho, diz: “O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria”. Em Salmos 45:6 o cetro do Reino de Deus é colocado como a equidade. É com essa régua que Deus faz justiça.

E o que é a equidade? É o oposto de iniquidade. A iniquidade é quando eu quero fazer valer o meu direito. É quando eu acho que porque eu trabalhei, eu mereço gastar comigo mesmo. É quando eu chamo algo de propriamente meu. É quando eu olho para o outro que não trabalhou e digo que ele não merece. A iniquidade é de onde precede qualquer pecado. Eu adultero porque acho que o corpo é meu e por isso eu tenho o direito de fazer dele o que eu quiser. Eu pratico a corrupção porque penso ter o direito já que fui eleito e todos fazem o mesmo. Eu minto porque penso ter o direito de dizer a verdade ou não. E assim vai. 

A equidade nos leva a abrir mão direito ou a compartilhar o direito com aquele que aparentemente não o tem. Deus fez isso com os pobres. Fez isso com você. Fez comigo. Ele detinha as chaves do Reino na mão e apenas Ele tinha o direito a esse Reino, pois foi o único ser humano sem pecado. Mais do que isso. Olha só o que lemos em 2 Coríntios 8:9: “Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos.”. Jesus era o único plenamente rico, mas se fez pobre por amor a nós e por meio da pobreza dEle, nos fez ricos. Se Jesus abriu mão da riqueza dEle para nos fazer ricos, quem somos nós pra fazer diferente? Porque Jesus compartilha o direito, eu também compartilho. Afinal, eu sou um pequeno Cristo. Logo, se eu trabalhei, ok, eu tenho direito de gastar comigo, mas eu decido abrir mão do direito e compartilhar com aquele que não tem.

Recentemente aconteceu isso comigo. Eu estava temporariamente sem carro, mas um amigo meu, o Bruno, que tinha o direito de ficar com o carro dele sem gastar pneu, óleo e demais itens de manutenção, decidiu deixa-lo comigo pelo tempo que fosse necessário até que eu conseguisse um outro carro. Isso é equidade. O Bruno ficou mais pobre naqueles dias e eu mais rico. Trocamos os papeis de rico e pobre todos os dias no Reino de Deus.

A segunda motivação para incluirmos o pobre na igreja é a consciência de família de Deus. E para que a gente possa ter essa consciência, a gente precisa conhecer a nossa identidade. Eu descubro, então, que a bíblia tem pelo menos 40 textos bíblicos que nos identificam como filho de Deus, mas eu escolho Romanos 8:15: “Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os torna filhos por adoção, por meio do qual clamamos, “Aba, Pai”.”. Esse texto traz a perspectiva de que Deus tem uma família da qual Ele é pai e eu sou filho. Entretanto, seria imprudência da nossa parte afirmar que somente nós, ou, somente eu, em mundo de bilhões de pessoas, é que sou filho de Deus. Não! Descobrir a nossa identidade nos ajuda a descobrir a identidade do nosso próximo. Se eu sou filho de Deus, ele também é. Eu não tenho certeza se a outra pessoa nasceu de Deus, mas isso não cabe a mim avaliar. Então eu trato todos como sendo filhos de Deus. Membros de uma só família.

Em Mateus 25:40, lemos: “O Rei responderá: “Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.”. O que Jesus está dizendo aí? Ele está dizendo que quando fazemos o bem às pessoas, em especial aos desfavorecidos, como o pobre, estamos fazendo a Ele. Jesus escolheu viver dentro deles. Viver dentro do pobre, da prostituta, do presidiário, do refugiado e de qualquer outro desfavorecido. Isso os torna membros da mesma família que nós, porque quando estamos lidando com eles, estamos lidando com Cristo, e Cristo é o nosso irmão mais velho, conforme o texto de Romanos. Por que isso fundamenta e motiva a igreja de Cristo a ser inclusiva? Porque não deixaremos de fora da família ninguém que Deus chamou de filho. Segundo Mateus 25, cuidar da família é a ação que torna evidente o o nosso conhecimento aos olhos de Deus. As árvores não têm olhos para enxergar umas as outras e ainda assim se comunicam e se reconhecem como família, suprindo as necessidades daquelas que se tornaram tocos e precisam de melhores nutrientes para sobreviver.

Ok! Nós conhecemos, então, duas motivações bíblicas que levam a igreja de Cristo a ser inclusiva: a justiça do Reino de Deus e a consciência de família. Entretanto, a pergunta que fica é: como podemos colocar isso em prática de forma sustentável? Como podemos incluir na nossa comunidade pessoas que não acompanham nosso ritmo social? Pessoas que não têm condições de frequentar os mesmos bares e restaurantes, de fazer as mesmas viagens, de sequer ter um lugar para voltar depois da viagem? De usar roupas adequadas, de ter o cheiro adequado, de falar a linguagem adequada? Devemos tentar torná-los um de nós com a mesma inserção econômica e social? Ou devemos encontrar uma forma de incluí-los sem mudar quem eles são?

Eu quero propor um conceito que tem ajudado muito a gente aqui na Vila Madalena: a inclusão de um filho de cada vez. Em geral, ficamos desesperados com a inclusão porque pensamos que temos que fazer isso em grande escala. Mas isso não é necessário! Aliás, creio que não deva nem ser nem aconselhável fazer isso no “atacado”. Recentemente, tive um diálogo, na sala de aula do mestrado que estou cursando, sobre a Cracolândia. Alguns amigos queriam mobilizar-se para montar um projeto social por lá. No meio do planejamento, eu fiz algumas perguntas a eles: vocês querem fazer um projeto social para resolver o problema da Cracolândia? Estão dispostos a mudar a vida de apenas uma única pessoa? Gastar tempo, dinheiro, vida, talento, tudo com ela? Separei uma história para ilustrar esse trecho. Vamos conhecer a “Bruxa da Cracolândia”, numa reportagem do Fantástico, de alguns meses atrás.

Percebem o valor de cuidar de uma pessoa por vez? Essa mulher mudou de vida porque alguém resolveu cuidar dela, pessoalmente. Alguém resolveu dedicar a vida a ela. Quando você muda o mundo de uma única pessoa, você muda o mundo. Costumo dizer que, “se você não quer mudar a vida de uma pessoa específica, não queira mudar a vida de uma classe social inteira”. Isso facilmente faria você entrar em uma espécie de assistencialismo. E veja bem! Eu não acho que assistencialismo seja algo ruim. Acho que também é necessário, mas estamos tratando aqui da vida da igreja e de como incluir as pessoas no convívio de comunidade. Então, o problema de querer incluir todos os moradores de rua do bairro na vida da igreja é que você vai tratar uma multidão que é um monstro sem rosto e coração, de acordo com a sabedoria dos Racionais MCs. Ou seja, você não terá tempo para se ocupar em desenvolver uma relação mais profunda com uma única pessoa, porque você estará exaustivamente envolvido com questões operacionais da multidão, esse monstro sem rosto e coração.

Portanto, decidimos cuidar de uma pessoa de cada vez, um filho de Deus de cada vez. Amar e cuidar de uma única pessoa requer de nós alguns cuidados. Primeiramente, temos que lembrar que cada detalhe dessa relação é obra do Espírito Santo. Deus escolheu a pessoa para o seu convívio e você para o convívio dela. Você precisa crer que Deus é o maior interessado nessa relação. Ele é o criador da missão de restaurar o ser humano. É especialista em mudar a vida das pessoas pra melhor. Então, tenha certeza de que isso é obra do Espírito. Sempre é. Se ainda estiver na dúvida, não comece a relação. Da parte de Deus, está tudo resolvido, mas da sua parte ainda resta resolver a sua dúvida, as suas crises. Então ore até que você se convença de que Deus quer você nessa relação, e para que Ele frustre todas as suas expectativas com as pessoas que Deus te mandou. Experimente viver o que Deus quer para você nessa relação, e não o que você quer de Deus.

Além de ter a certeza que a obra é de Deus, é fundamental que você tenha respeito pelo ser humano que Deus te enviou. Respeito pela história dele. Você nunca saberá toda a verdade a respeito, e tudo bem. Às vezes ele vai mentir para você, falhar com você. E ok! Permita-se ser enganado às vezes. Nessa relação, nós não estamos interessados nas informações certas como prioridade, mas no resgate e na reconciliação do ser humano. Tenha paciência que com o tempo de convivência você terá chances de ajuda-lo a não mentir mais. Devemos ter respeito pela condição deles. Eles são pobres e moradores de rua. Às vezes, eles não vão querer sair daquela situação e ser autônomos na vida, porque aquilo pode mudar quem eles são. Talvez você o tire da escravidão dele e o coloque na sua. Todos somos escravos de alguma coisa! Ele, escravo na exclusão social. Você, escravo do mercado e do sistema capitalista. A sua opinião sobre o fato de ele estar na rua não vem ao caso. Conheça-o muito antes de propor soluções. Devemos respeitar também a situação deles. Em muitos casos, você vai perceber que essas pessoas estão na rua porque são viciadas em drogas, em algum entorpecente. Você sabe que não é fácil se curar desses vícios. Tenha paciência. Respeite também o tempo das pessoas. Há pessoas que aprendem rápido, outras demoram. Por vezes, as pessoas não estão no momento de vida que as ajude tomar decisões difíceis. Respeite! Por último, conheça e respeite as limitações dele. Pode ser um problema de linguagem, mental, físico, emocional, espiritual, etc. … Não exija grandes decisões ou disposições de alguém limitado. Nem sempre vencemos as nossas limitações tão rapidamente. Moradores de rua não tem coach’s ajudando eles todos os dias. Lembre-se disso.

Agora que você sabe que a obra é do Espírito Santo e entendeu todas as coisas que você precisa respeitar nessa relação, quero falar com você sobre a cruz. Não será fácil dedicar-se a isso. Não será fácil entrar numa relação com uma pessoa tão diferente de você. Então, esteja disposto a sacrificar sua agenda, tempo com familiares e amigos, seu descanso e seus recursos financeiros, assim como está escrito em Lucas 14:33: “Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.”. Você não pagou pela graça de Deus, mas o discipulado custará tudo de você. No mesmo capítulo de Lucas, no versículo 28, Ele diz: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?”. Não entre nessa vida de discípulo sem antes calcular o preço. Quando você começar a dedicar sua vida a essa relação com todos os recursos e bênçãos que Deus colocou na sua vida, você experimentará a paz e a alegria que são consequências na justiça do Reino. Isso está escrito em Romanos 14:17: “Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo”, e também em Mateus 6:33: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.”.

Além daquilo que vai te custar, esteja pronto pra lidar com os riscos envolvidos nessa relação. O risco de ela não dar certo, o risco da pessoa morrer no meio do caminho, o risco de ser roubado, enganado, o risco de pegar uma doença, o risco de ficar sem dinheiro e até o risco de ser morto! Você corre esses riscos todos os dias e aos olhos dos homens você estaria correndo um risco ainda maior convivendo com alguém como o morador de rua. Então, lembre-se da promessa de Deus em Salmos 34:7-10: “O anjo do Senhor é sentinela ao redor daqueles que o temem, e os livra. Provem e vejam como o Senhor é bom. Como é feliz o homem que nele se refugia! Temam o Senhor, vocês que são os seus santos, pois nada falta aos que o temem. Os leões podem passar necessidade e fome, mas os que buscam o Senhor de nada têm falta.”. Isso não quer dizer que não acontecerá nada disso com você. Pelo contrário! Eu estou vivendo esse estilo de vida há menos de um ano e praticamente já aconteceu tudo isso comigo ou com alguém da nossa comunidade. Esse texto quer dizer que mesmo que isso tudo aconteça com a gente, Deus estará conosco e nada nos faltará!

Dessa forma, a gente pode aprender que na igreja inclusiva, o discipulado é uma via de mão dupla: temos algo a contribuir com o morador de rua e o pobre, mas se formos analisar, lá no fundo, nós aprendemos muito mais com eles! Minha oração hoje é para que você decida ajudar a sua comunidade a ser tornar uma igreja inclusiva. Não uma igreja que presta apenas assistencialismo. Uma igreja que inclui os menores do Reino de Deus na vida em comunidade, garantindo que eles não sejam excluídos dos benefícios de viver em família. E como no sistema das árvores que a gente possa se unir para favorecer os “tocos de seres humanos” que Deus nos presenteou pra cuidar. Essas são as minhas palavras pra vocês hoje, em nome de Jesus.