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Pare de mastigar

Hora do almoço. Chego ao restaurante e peço uma lasanha. Não estou “grávido”, mas o desejo pelo prato está absurdo. Minutos depois, ao longe, vejo o garçom. Ele vem caminhando, quase que em câmera lenta, em minha direção. Água na boca. Engulo uma caixa d’água de 500 litros. Mais uns passos dele. Abro um largo sorriso. O detentor da minha lasanha, enfim, a coloca em cima da mesa. Eu a devoro, como o Djavan fazia com sua amante. É uma garfada atrás da outra. Enquanto mastigo um pedaço, já corto o próximo que, em uma fração de segundo, já está em minha boca. O ritual de pura ansiedade, que beira o desespero, se repete até que, em 5 minutos, extermino a tão desejada e sonhada lasanha. Apesar de tudo, fui com tanta sede ao pote, ou melhor, ao prato, que não me lembro do sabor. Não sei qual foi o melhor pedaço. Nem consigo me recordar dos ingredientes que compunham a minha massa. Confesso que, inclusive, até queimei o céu da boca. Bom, mas o que será que vou comer na janta? Quem sabe uma pizza? Talvez eu pense em uma alternativa mais light. Vou pensar. Estou bastante estufado, mas acho que já estou com fome de novo. Não vejo a hora de devorar a janta.

Que vida levamos, não? Nunca paramos de “mastigar”. Queremos tanto aproveitar cada segundo, numa espécie de mergulho profundo no Carpe Diem, que mal olhamos para o lado enquanto desfrutamos da vida. E quando acaba o objeto atual de desejo, por não tê-lo aproveitado da maneira correta, já agendamos o próximo. Pego um compromisso, mas ele não me preenche. Assumo mais um. E mais outro. Mordo aqui. Mastigo ali. E no fim, estou estufado, mal e, o pior, insatisfeito.

Satisfação não tem a ver com o que faço, mas, sim, com o como faço. Tem de haver sentido. Tem de haver propósito. Minha satisfação está na lasanha. Ok. Eu a como. Por perder a noção do significado do momento, termino e não estou satisfeito. Entende o que estou dizendo? Temos de parar de mastigar! Precisamos curtir pedaço por pedaço. Saborear cada ingrediente, cada tempero. Isso é satisfação!

Se você morresse hoje, estaria satisfeito? Pra muitos, a resposta é “não”. E sabe por quê? Porque tentamos fazer muita coisa, abraçar muito compromisso, produzir demais em pouco tempo, e quanto mais corremos para lotar a agenda, sentindo-se bem e completo, menos nos envolvemos com cada horário do nosso dia. “Nossa como o tempo está passando rápido”. Estou em um encontro importante, já pensando no próximo. Me atraso. Fico aflito. Corro. Encaixo outra coisa aqui e ali. Cumpro tudo. Mas, estou satisfeito? Termino o dia estafado, mas “saboreei os temperos”? Ou apenas “comi feito um louco porque estava com desejo”? Obviamente não estou aqui para dizer que você deve abrir mão de compromissos e ter uma vida mais tranquila, afinal quem pede que a gente se poupe é o inimigo, nunca se esqueça disso. No entanto, por outro lado, quando Deus nos chama, Ele nos convida para fazermos tudo com sentido, com entendimento e com a certeza de que em cada ação demos o melhor, com a cabeça única e exclusivamente focada ali.

Cada um sabe das suas prioridades. A cada qual cabe estabelecer sua própria agenda, de acordo com o que Deus mostra e chama. Mas há algo que é inegociável e comum a todos nós: enquanto comemos, temos de parar de mastigar, por um minuto que seja!