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Os 7 pecados – Luxúria e Gula

Na última poesia da série “Os 7 pecados”, a LUXÚRIA E A GULA “se apresentam” a nós. Elas fazem uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. 

Hoje a apresentação é em cumplicidade
Viemos revelar nossas identidades
Somos vontades incontroláveis
Não existimos de maneiras saudáveis

Eu sou o desenfreado desejo sexual
Eu te faço comer até passar mal
Eu só penso na carne humana
Eu estou focado na carne que não vai pra cama

Nelson Rodrigues me trata como o miserável tédio carnal
A escravidão pelo desejo sexual
Não me importa quem
Preciso me envolver com alguém

Pra mim o corpo é um objeto
Eu uso e descarto quando acho certo
Se tenho vontade, na falta da minha
Me entrego no desejo pela vizinha

Destruo casamentos
Acabo com relacionamentos
Só estou em busca de satisfação
Sou tão forte que me torno uma compulsão

Comer e beber são as motivações da minha vida
Sinto atração irresistível por toda comida
Tenho aversão ao jejum
Meu estômago é um coração de mãe: sempre cabe mais um!

Sou descontroladamente glutão
Constantemente esganado
Excessivamente comilão
Eternamente insaciado

Te convenço de mais uma golada
Só a sobremesa e mais nada
Vamos, você aguenta
Escolha entre a batata, a lasanha e a polenta!

Destruo a paz da sua alma
Acabo com sua calma
Te faço viver pelo que não é espiritual
Transformo amor e sexo em algo banal

Faço de você um doente
Controlo sua mente
Domino suas ações
Estou presente em todas suas imaginações

Não te deixo descansar
Apareço em qualquer lugar
No metrô, no escritório ou na rua
Na sua mente a pessoa desejada está sempre nua

Me chamam de um triste prazer
O arrependimento vem logo depois de comer
Mesmo assim sou louco por uma mesa farta
Como um big mac e duas porções de batata

Me dou muito bem com os outros pecados
Nós caminhamos sempre lado a lado
A verdade é que se você é um glutão
Para os outros seis você nunca diz não!

Da luxúria, sou irmã
Se não tem mais comida, não fico sã
Aliás, quando falta eu fico irada
Mas tenho orgulho por aguentar sempre outra garfada

Como a avareza, eu guardo… mas no meu interior
Adoro a preguiça após um banquete no calor
Confesso que sinto inveja de uma vida saudável
Mas de todos os sete sou o menos detestável!

Você come, você faz
E ainda assim continua a querer mais
Sua vontade nunca fica nula
Desculpa por nossa existência: somos a luxúria e a gula!

 

A Páscoa – uma poesia sobre a cruz


Dentro de uma cela
No canto acorrentado
Apenas à luz de uma vela
Meu pulso está algemado

Tudo é escuro
O medo toma conta de mim
Cercado por quatro muros
Agora será o meu fim

Um homem sem sorte
Condenado à execução
Prestes a enfrentar a morte
Sem chance de libertação

Sim, eu sou culpado
Mas queria uma oportunidade
De voltar à sociedade
E mostrar que estou renovado

Chamo o guarda da prisão
Sinto no corpo um arrepio
Ele nem me dá atenção
Fico sozinho no clima sombrio

Mas o portão é então destrancado
Acho que agora vem o carrasco
Eu serei executado
Meu desejo se torna um fiasco

Alguém entra e eu cubro o olhar
A corrente é arrebentada
A algemada é retirada
Ele diz que não vai me matar

Pede pra eu me levantar
Pagaram toda a fiança
Estou livre para recomeçar
Essa era minha esperança

A cela se fecha atrás
E pra sempre é trancada
Da cela ao lado sai Barrabás
As penas estão abortadas

De assassinos a mentirosos
Da mais grave à mais singela
Estão livres os criminosos
Abriram-se todas as celas

No corredor, ouço comentários
Alguém escolheu a condenação
Ele está lá no calvário
Pendurado com cravos nas mãos

Saio do calabouço
Livre eu enxergo a luz
Em meio à gritaria eu ouço
Que o nome do homem é Jesus

Corro na multidão
Quero chegar nessa cruz
De joelhos caio no chão
Sou ofuscado pela luz

Ele diz que está consumado
Eu não preciso ficar preocupado
O madeiro que foi levantado
Estava no plano que fora traçado

O sofrimento foi por amor
Aquilo era só a passagem
Ele precisava sentir a dor
Pra que a gente entendesse a mensagem

Ali compreendo quem sou
Um homem que foi resgatado
Com nova identidade estou
Sou filho do Mestre amado

A cruz foi necessária
Mas a morte foi destruída
A cova foi temporária
E a ressurreição nos trouxe vida

Não mais escuridão
Agora apenas a luz
A Páscoa é a renovação
Pela graça de Jesus

 

Os 7 pecados – Preguiça

Na quarta poesia da série “Os 7 pecados”, a PREGUIÇA “se apresenta” a nós. Ele faz uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. Ao longo das próximas semanas, você verá uma poesia “feita por cada um dos pecados”.

 

“A Divina Comédia”, de Dante Alighieri.

Quero começar desabafando
Dizem por aí que eu estou sempre enrolando
Protesto! Não é bem assim!
Só prefiro o trabalho longe de mim

Façamos uma viagem ao passado
Desde a infância, eu estou ao seu lado
Almoça e pega a coberta no baú
Depois dorme a tarde toda assistindo “Lagoa Azul”

Na escola, aquele sono matinal
Copiar toda a lição era um exercício mortal
Ler livros, fazer resenha, estudar
Confesso que eu sempre preferi colar

Hoje em dia eu continuo presente
Todo adulto uma hora me sente
Sou aquela famosa leseira
Pra preencher os relatórios numa segunda-feira

Se tem muito esforço, eu não quero
Se puder esperar, eu espero
A musculação eu paguei por um ano
Mas não fui em nenhum dia do plano

O cálculo do troco só na calculadora
Não lembro a última vez que usei uma vassoura
Qual a pergunta? Vou pesquisar!
O Google me ajuda a não ter que pensar

Quem busca a pizza? Eu que não!
Alguém pode levar o lixo? Pede pro João!
Tem que buscar sua irmã na dentista
Pode deixar que eu pago o taxista

Pode parecer engraçado
Mas hoje em dia, sou crucificado
Em tempos onde o trabalho é glorificado
Quem fica ocioso é sempre julgado

Mas eu sou insistente
Não porque tenho energia
É porque quero que toda gente
Viva à beira da melancolia

Me associam com improdutividade
Ociosidade
Vagabundagem
E até vadiagem

Pra mim, nada é urgente
Eu empurro tudo com a barriga
O ritmo que comanda a minha mente
Anda no passo de uma formiga

E por falar em natureza
Eu até já fui homenageado
Tem um bicho cheio de beleza
Que com meu nome foi batizado

Inspirado nesse bichinho, eu já preciso deitar
Daqui a pouco a minha mente enguiça
Dá licença, eu vou ali descansar
Afinal, eu sou a preguiça!

Os 7 pecados – Ira

Na quarta poesia da série “Os 7 pecados”, a IRA “se apresenta” a nós. Ele faz uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. Ao longo das próximas semanas, você verá uma poesia “feita por cada um dos pecados”.

Quando chego mostro que sou insuportável
Incomodo e causo aversão
Faço um escândalo reprovável
Dos seus sentimentos eu sou a explosão

Sou quase sobrenatural
Porque você é possuído por mim
Como uma personificação do mal
Eu não prevejo o fim

Joga no Google “dia de fúria”
E eu apareço de várias maneiras
Sempre com minha amiga injúria
Eu te faço perder as estribeiras

Nascida em seu pensamento
Apareço na sua ação
Às vezes sou violento
Às vezes paro num palavrão

Eu surjo no trânsito
Dou as caras no metrô lotado
Quando a toalha molhada fica em cima da cama
E quando seu carro amanhece quebrado

Revelo-me sobre seu rosto
Quando a Receita cobra mais imposto
Ou quando você é pego pelo radar
Na avenida onde o limite não para de mudar

Não sei o que é justo e verdadeiro
Só quero cobrar o que acho correto
Sou capaz de esculachar o país inteiro
Quando algo sai do meu controle completo

Faço seu sangue ferver
Acelero o batimento do seu coração
Impossibilito que você possa ver
Ou escutar os conselhos da razão

Comigo você perde a compostura
Pra quem está de fora parece loucura
Posso ser breve, mas sempre intensa
Me considero uma vingança sem nenhuma recompensa

Do ódio sou bem diferente
Pois sou concreta e individual
Enquanto o ódio é um sentimento constante
Estou ligada a uma dor pontual

Posso ser associada a uma doença mental
Transtorno borderline e antissocial
Transtorno explosivo intermitente
Sou estudada porque machuco muita gente

No fim das contas, sou o segundo descontrolado
Te faço matar quem está ao seu lado
Se está armado você atira
Agora já está claro… Eu sou a ira!

Os 7 pecados – Inveja

Na terceira poesia da série “Os 7 pecados”, a INVEJA “se apresenta” a nós. Ele faz uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. Ao longo das próximas semanas, você verá uma poesia “feita por cada um dos pecados”.

A Inveja, por Dante Alighieri (A Divina Comédia)

Olá, você está bem?
Então, eu tenho que estar melhor
Não tolero o sucesso ninguém
Preciso ter mais que todos ao meu redor

Vim do latim
Sou o mesmo que cegueira
Mas só não enxergo a mim
O outro eu vejo de qualquer maneira

Não me confunda com a cobiça
Porque ela pode ser do bem
A única coisa que me atiça
É ter mais do que você tem

Na divina comédia
Eu costuro seus olhos com arame
Na vida real
Só quem tem menos eu deixo que você ame

Sou a admiração dissimulada
A reivindicação infeliz do eu
Prefiro perder pra não te ver ganhar nada
E que a sua luz se transforme em breu

Perdoo a alegria de alguém distante
Mas não perdoo de quem está ao meu lado
Se a mulher dele ganha um anel de brilhante
A minha ganha um carro importado

Outro dia um amigo foi promovido
Eu dei um sorriso de ouvido a ouvido
Por dentro eu só lamentava
A minha alma apenas chorava

Sou a tristeza pelo bem estar do irmão
E não adianta dizer que não
Porque um dia você já sentiu
Uma dor profunda quando o outro sorriu

Você diz que sou branca
Porque tem vergonha de mim
Mas não me venha com essa desculpa santa
Porque eu não existo assim

Sou a pivô do primeiro homicídio da história
Eu fiz Caim matar Abel
Confesso que sou a escória
De todo sentimento abaixo do céu

Na parábola do filho pródigo, aquele gastador
Eu sou a protagonista
Transformo alegria em dor
E a compaixão em um sentimento egoísta

Busco ser mais… de toda maneira
Quero ser o melhor… da série inteira
Sabe aquele final esperado?
É hora de mostrar o que eu tenho guardado

Eu fui traído pelo dicionário
Nada rima comigo
Vasculhei todo vocabulário
E o meu encerramento ficou em perigo

Por isso desencanei
Pensei em terminar mais simplificado
Mas do orgulho e da avareza lembrei
Eu preciso superar os outros pecados

Se não tem palavra que me ajude a rimar
Eu dou um jeito mais pomposo
Atrás de ninguém eu posso ficar
Eu sou a inveja, eu sou invejoso!

 

Os 7 pecados – Avareza

Na segunda poesia da série “Os 7 pecados”, a AVAREZA “se apresenta” a nós. Ele faz uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. Ao longo das próximas semanas, você verá uma poesia “feita por cada um dos pecados”.

 

A avareza, por Dante Alighieri (A Divina Comédia)

Boa noite
Deixe me apresentar
Eu tenho muitos nomes
Alguns eu já vou citar

Me chamam de mesquinho
Acho que sou um pouquinho
Sou conhecido como pão duro
É o que disse sheakespeare, moliere e epicuro

Sovina e ganancioso
Pra mim, o dinheiro é precioso
Plata ou plomo, dizia escobar
Quanto mais tem mais quer conquistar

Confesso que sou um tirano cruel
Te faço esquecer da providência do céu
Deus disse que daria o alimento
Eu prefiro garantir meu sustento

Assim como meu amigo orgulho
Eu tô no meio do seu entulho
Mas é difícil me identificar
Eu apareço camuflado com o apelido poupar

Te convenço a guardar
A aposentadoria vai acabar
Invista no tesouro direto
Sem mim o seu futuro é incerto

Tem renda fixa e previdência privada
Salve agora pra não te faltar nada
Não desperdice e não precisa gastar
Acumule tudo que conquistar

O prudente e o poupador
Nem sempre estão comigo
Mas se eu viro um grande valor
A poupança se torna um perigo

Não ando em boa companhia
Mas aparento ter boas intenções
Estou presente em todos seus dias
Meu objetivo é te levar aos milhões

Apague um pouco a luz
Vamos economizar
O momento é bacana
Mas ninguém precisa enxergar

Se tempo é dinheiro
Pode me chamar de big ben
Eu tô em cima o tempo inteiro
O meu não é de mais ninguém

O outro é só mais um
Ajudar nem é tão bom assim
Altruísmo de jeito nenhum
Pro egoísmo eu digo sim

Dos sete pecados capitais
Sou o que te faz querer mais
Sou o que te faz ajudar menos
E te faço esquecer dos pequenos

Me ama o que faz a corrupção
O banqueiro e o patrão
Também tem o lobista
O agiota e o golpista

Não precisa mais se questionar
Seu tempo não vou mais roubar
Se você ainda não tinha certeza
Prazer, meu nome é avareza!

Os 7 pecados – Orgulho

Na primeira poesia da série “Os 7 pecados”, o orgulho “se apresenta” a nós. Ele faz uma autodescrição, indicando as características que mais afloram nas pessoas. Ao longo das próximas semanas, você verá uma poesia “feita por cada um dos pecados”.

Boa noite
Prazer
Quando chego, eu sou meio tímido
Mas logo eu me faço reconhecer

A verdade é que você já me conhece
Mas prefere fingir que não
Eu sou um sentimento
Que muitos guardam lá no porão

Na sua roupa, eu tô no seu bolso
Na sua casa, no seu armário
Eu não cometo erros
E quando deslizo te convenço do contrário

Me chamam de egoísta e prepotente
Soberbo e arrogante
Vaidoso e insolente
Uns dizem que sou ignorante

Acredite
Você me conhece
Eu faço você viver
Apenas pelo que parece

Máscara
Aparência
Poder
Falta de transparência

Eu sou o típico mal vestido de bem
O lobo em pele de cordeiro
Aquele que não engana ninguém
Mas que tenta o tempo inteiro

Se ele é o errado
Eu não arredo o pé
Só peço desculpa se já fui desculpado
Se a vida fosse futebol eu seria o pelé

Sou um dos sete pecados
Te faço ver a vida pelo modo errado
Te incentivo a viver sem coerência
Comigo não tem concorrência

Sou o eu
Em detrimento do nós
Sou meu próprio deus
Só eu. O resto, após.

Com tanta coisa ruim
Você quer ficar longe de mim
Desculpe lhe avisar
Somos tão íntimos que não podemos nos separar

Você precisa de ajuda
Como os que buscam o ‘AA’
Cada dia sem mim é uma vitória
Que você tem que comemorar

Mas não se orgulhe da vitória
Porque isso já é derrota
Em toda sua história
Eu sou a pedra dentro da bota

Talvez você esteja perdido
Ainda não saiba quem sou
Sou o sentimento escondido
E de mim você se cansou

Já te enrolei
Deixa eu me apresentar
Meu nome é…
Antes tenho outra coisa pra falar

Na verdade
Você precisa me reconhecer
Faça uma autoanálise
Me enxergue dentro de você

Não é nada simples
Estou no meio do seu estulho
Agora você já sabe
Eu sou o orgulho!